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Médica do Paraná se torna ré por dar falsos diagnósticos de câncer de pele e recomendar cirurgias desnecessárias

Cotidiano BrasilienseCotidiano Brasiliensefevereiro 7, 2025 4084 Minutes read0

Carolina Biscaia responde pelos crimes de estelionato, falsificação de documentos e lesão corporal. Defesa declara que comprovará “enorme injustiça que recai sobre a cliente”.

 

A médica Carolina Fernandes Biscaia, natural de Pato Branco, no sudoeste do Paraná, tornou-se ré na Justiça por emitir laudos falsos de câncer de pele e realizar procedimentos desnecessários em pacientes. Ela foi denunciada pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR) em outubro de 2024 por lesão corporal, estelionato, falsidade ideológica e por exercer atividade ou anunciar que a exerce sem cumprir os requisitos legais.

A investigação a respeito de Carolina começou em março de 2024, quando algumas pessoas desconfiaram dos procedimentos cirúrgicos recomendados por ela. Ao menos 31 pacientes formalizaram queixas junto à Polícia Civil (PC-PR). Relembre os detalhes abaixo.

A Justiça aceitou a denúncia no dia 31 de janeiro, relativa a relatos de 38 vítimas. Em sete casos, o juiz Eduardo Faoro não reconheceu parte dos crimes que haviam sido atribuídos à médica pelo MP.

“Em relação aos demais delitos narrados na denúncia, os elementos de cognição até então produzidos traduzem indícios das suas existências e das suas autorias pela acusada”, diz um trecho da decisão.

A defesa de Carolina foi comunicada na última segunda-feira (3) e dispõe de um prazo de 10 dias para apresentar resposta.

Os defensores da médica  afirmaram que “com o recebimento da denúncia pela vara criminal da comarca de Pato Branco, a Justiça começa a ser feita, pois o magistrado rejeitou diversos crimes dos quais ela estava sendo acusada”. A declaração foi dada pelo advogado Valmor Antonio Weissheimer.

Ainda de acordo com o defensor, a equipe de Carolina provará “a enorme injustiça que recai sobre a cliente”.

O inquérito que motivou a denúncia do MP

O delegado Helder Lauria, responsável pela investigação que levou ao indiciamento da médica em 21 de outubro de 2024, explicou que o fechamento do inquérito mostrou como Carolina Biscaia enganava os pacientes. Segundo ele, as apurações deixaram claro que a médica agia sozinha.

“Todas as vítimas relataram uma forte pressão psicológica exercida pela médica durante a consulta, para que se realizassem os procedimentos logo após o diagnóstico”, apontou o delegado.

Conforme Lauria, a investigação demonstrou que a médica examinava pintas e manchas dos pacientes, levantando a possibilidade de serem cancerígenas. Em seguida, retirava amostras e as enviava para análise laboratorial.

Segundo as autoridades, na reconsulta, ela entregava ao paciente um laudo falso indicando câncer de pele. Ainda de acordo com a Polícia Civil, perícias em exames localizados tanto no consultório quanto nas mãos de pacientes comprovaram que a adulteração era feita no próprio local, por meio de uma máquina de xerox.

A investigação descobriu, também, que alguns documentos verdadeiros eram sobrepostos e, por meio de cópias, surgiam laudos forjados.

Médica foi impedida de exercer a profissão

                                                        Registro da profissional no Conselho Federal de Medicina — Foto: CRM

 

Em março de 2024, o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) aplicou contra a médica uma “censura pública” por divulgar especialidades que não possuía.

Desde maio de 2024, a profissional está sob Interdição Cautelar Total de 180 dias, determinada pelo CRM-PR e ratificada pelo Conselho Federal de Medicina, o que a impede de exercer a medicina.

Ao consultar o site do conselho por meio dos números de registro profissional de Carolina no Paraná e em São Paulo, não há especialidades reconhecidas em nome dela. Nas redes sociais, contudo, a médica se apresentava como dermatologista.

O  CRM foi questionado sobre a atual situação de Carolina Biscaia. O órgão confirmou que a interdição permanece ativa e que outras informações correm em sigilo processual, conforme estabelece o Código de Processo Ético-Profissional.

Áudio mostra médica comemorando retirada de falso melanoma

Médica suspeita de emitir laudos falsos de câncer de pele comemora remoção de melanoma

Um áudio obtido em março de 2024, e que consta no inquérito encaminhado à Justiça, registra o instante em que Carolina Fernandes Biscaia Carminatti celebra a remoção de um falso melanoma — tipo de câncer de pele considerado mais agressivo — de uma paciente. A conversa foi gravada em janeiro de 2024.

“Não sei se você é católica ou não, mas passe na igreja para agradecer a Deus. Tem coisas que a gente precisa agradecer, sabe? Porque, como eu disse, a chance de pegar assim (melanoma) nesse estágio, em que a gente só amplia a margem e está curada, é uma dádiva […]. Não precisa se preocupar com metástase”, relatou a médica.

De acordo com o delegado responsável, o áudio reforça o depoimento prestado pela vítima, confirmando as palavras da médica na ocasião.

A paciente contou à polícia que gravou a consulta por cautela, para compartilhar com seus familiares, pois teve melanoma em 2013 e esse tema lhe causava apreensão.

Ela descobriu que o diagnóstico era falso quando encontrou erros no laudo fornecido por Carolina, ao comparar com o documento emitido diretamente pelo laboratório.

Depois de constatar a fraude, a gravação serviu como prova no inquérito.

A pedido da médica, a vítima passou por um procedimento conhecido como ampliação de margens, no qual se removeria mais tecido em volta da suposta lesão. No caso dela, a falsa doença estava na perna esquerda. Ela desembolsou mais de R$ 5 mil e agora carrega uma cicatriz desnecessária no local.

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